IRATEMBÉ E A COPAOBA
Foi publicado recentemente um estudo que buscou analisar o processo de construção do mito de fundação da Paraíba envolvendo uma indígena Potĩguara mencionada por Frei Vicente Salvador no século XVII, em sua obra “História do Brasil”. A personagem está relacionada à narrativa que ficou conhecida como “Tragédia de Tracunhaém”, episódio que, ao longo do século XX, foi eleito por parte da historiografia paraibana como marco fundador da Paraíba. Segundo o artigo, entretanto, essa interpretação vem sendo contestada por diversos estudos publicados nas últimas duas décadas.
O texto demonstra como, ao longo do tempo, essa indígena foi sendo construída, interpretada e nomeada por diferentes discursos. De acordo com os autores, por exemplo, o nome “Iratembé” foi atribuído à personagem sem que exista qualquer fonte histórica dos séculos XVI ou XVII que sustente essa hipótese. Ainda assim, a denominação é amplamente divulgada, muitas vezes sem qualquer indicação de que se trata de uma nomenclatura criada posteriormente e sem respaldo documental. Além disso, diferente do que frequentemente circula nas redes sociais, não existem fontes históricas que sustentem a hipótese de que a aldeia chefiada, segundo Frei Vicente, por Iniguaçu ficava localizada nos atuais limites territoriais de Serra da Raiz.
O artigo, intitulado “Iratembé: a gestação de um corpo indígena enquanto mito de fundação da Paraíba”, foi escrito pelos historiadores Waldeci Ferreira Chagas e Júlio Cesar Miguel, ambos vinculados ao Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi) da UEPB-Campus III. O trabalho contou também com a colaboração do historiador João Paulo Ferreira, igualmente integrante do Neabi. Em diálogo com as pesquisas de Margarida Dias, Regina Célia Gonçalves ( @reginacelia.ufpb ) e Sylvia Brito ( @sylviabrito ), o estudo contribui para uma compreensão mais ampla dos processos de construção da identidade histórica do estado da Paraíba.
O texto integra o décimo terceiro capítulo do livro Escritos de Corpus: carnes, tempos, histórias, sofrimentos, organizado por Durval Muniz ( @dudumunix ), Álvaro Luis Lins e Thiago Venícius de Sousa.